EU SOU UMA SALA DE ESPERA PARA OS MEUS COMPANHEIROS, SE VIEREM_____*

Aline Natureza

A televisão ligada o dia inteiro não dá conta das perdas que se acumulam, como se as horas fossem marcadas por uma ampulheta com o fundo quebrado, com areia que nunca se esgota e escorre não se sabe para onde.

Nos instantâneos de Quando tudo isso acabar, Kamilla Nunes tenta fixar – em tinta e água – o acúmulo destes dias desassossegados, opera como testemunha de uma época de indefinições e suspensões, questionando e apontando o contínuo confronto entre privado e público, revelando fragilidades e rupturas sociais.
A comunidade se dissipou a ponto de perder o comum, o laço, e tudo passou a ser espera e escape:

: Não na temporalidade da história, mas na temporalidade dos seus afectos, nas formas que revelam,

nos pensamentos que sublevam, no rasto do fulgor que deixam no sentido que interrogam.1

Nestes tempos perigosos, como alertam as bandeiras cravadas em base firme e porosa – como a pele, que resiste aos dias, mas cede ao toque nos dedos –, propõe um mergulho ao que se conhece, mas não se alcança o fundo porque tudo é contingente:
: a casa, o oceano, a pele, o espaço

Esta casa não tem lá fora.2

E o tempo aqui é conjugado como no conceito de durée, de Bergson, em uma relação entre interior e exterior, entre real e representação, em linhas mutáveis, rasuráveis, apagáveis. Ao jogar com o tempo, a artista traz as linhas convulsas de Ana Cristina Cesar, em um horizonte que surge tão fixo quanto âncoras no espaço:

: É sempre um pouco tarde3 ou
: Nada foi, tudo está sendo4

Em Quando tudo isso acabar, Kamilla Nunes segue buscando gerir um tempo que é simultâneo e que nunca vai acontecer senão no quase.

ARTISTA

kamilla nunesKamilla Nunes é artista, curadora independente e crítica de arte, mestre e doutoranda no Programa de Pós-Graduação do Ceart/Udesc, graduada em Artes Plásticas pela mesma universidade [2010]. É editora da CAIS Editora e curadora do Memorial Meyer Filho [2008-]. Foi gestora do Espaço Embarcação, em Florianópolis [2015-2018]. Foi curadora do Espaço Cultural O Sítio [2015] e diretora do Instituto Meyer Filho [2010 a 2014]. Foi integrante do grupo de curadoria de Frestas Trienal de Artes [SESC, 2014, Sorocaba] e realizou a curadoria da exposição “Sumidouro” [Laboratório Curatorial da SPArte, coordenado por Adriano Pedrosa, SP, 2012]. É autora do livro “Espaços autônomos de arte contemporânea”, lançado em 2013 através da Bolsa Funarte de estímulo à produção crítica. Atualmente pesquisa e ministra aulas sobre Arte Brasileira Contemporânea e está desenvolvendo um processo de criação que fricciona campos do conhecimento, como a psicanálise e o materialismo histórico, por exemplo. Interessa perceber como os sistemas de linguagens se revelam, quais relações existem, hoje, entre o indivíduo e o coletivo, entre o pessoal e o político. Representada pela Helena Fretta Galeria de Arte.

 

A EXPOSIÇÃO

OBRAS

AR

A

R

assim mesmo, empilhado, como os corpos que vemos todos os dias nos telejornais e nas redes sociais. Sobrepor uma letra à outra foi uma maneira de não nos deixar esquecer que o AR não é apenas uma mistura de gases que compõem a atmosfera, um desenho sobre papel ou um trabalho de arte, AR é falta, é agonia, é luta. AR foi o que faltou a milhões de pessoas assoladas pela pandemia. O mesmo AR, que é essencial à vida, e que só percebemos quando nos falta, talvez tenha sido, contraditoriamente, o maior motivo de desespero e medo dos últimos tempos.

À PELE, AO FUNDO

Dois corpos, um abraço. Imagens que sintetizam muitos dos sentimentos que vivemos durante o período de confinamento social. Se, por um lado, o abraço guarda a memória do contato, do afeto, do desejo, do encontro, por outro, passou a ser também o espaço do contágio, do medo e, por isso, do distanciamento. Quantos abraços deixamos de dar todos os dias?

A CASA É UMA ILHA ANCORADA PELA PAISAGEM

Essa série de pinturas surgiu a partir de um poema de Ana Cristina Cesar, cujo verso dá título à obra. Lado a lado, elas formam uma espécie de gráfico, de tábua da maré. O mar, aqui representado com uma massa de tinta acinzentada, pesa como concreto na paisagem, de modo a deixar dúvida sobre o que ancora, de fato, a casa: se a âncora, que aparece sempre suspensa, ou se o mar, aqui intranspassável e instransponível.

ESCAPE

Escape é um espaço e n t r e, está localizado bem na beirada, na borda, já escapando para um lugar que se pretende outro, ou pelo menos diferente da realidade em que se encontra. É também uma investigação sobre a relação entre a palavra, o espaço e a imagem. Ou, ainda, pode ser lido como uma maneira de escapar daqui, dessas páginas sequenciais.

NÓS

Em 2014, o artista Fabio Morais desenvolveu um carimbo de 15cm x 15cm x 10cm de madeira (eucalipto) e polímero. No centro desse objeto, estava escrita a palavra “eu”. Ali, sozinha,ilhada, diminuta, incomunicável. O objeto era, para o “eu”, um descampado e, ao mesmo tempo, sua morada. Era não apenas sua base, mas também sua possibilidade de multiplicação. Seis anos se passaram desde a realização dessa obra, e resolvemos, Gabi Bresola e eu, no meio de uma pandemia, de uma circunstância de isolamento social, olhar de novo para esse múltiplo e propor uma pequena alteração, que vai da primeira pessoa do singular à primeira pessoa do plural: do eu ao nós.

O MAIS PROFUNDO É A PELE

O título destes desenhos é, talvez, a frase mais comum e conhecida de Paul Valéry, muito embora não seja, nem de longe, a mais superficial. O que proponho aqui é um mergulho, ou um respiro, através do toque, da fricção, do encontro. Estes são abraços de pessoas que passaram juntas o período de isolamento social, e que portam em seus rostos máscaras que cobrem toda a superfície das suas peles: os olhos, o nariz, a boca. Portam, também, a esperança, ou o que ela já foi um dia. Abraços que surgem, ou desaparecem, em retângulos pretos, e que flutuam, eles também, na superfície branca do papel. Nos resta a pele, a profundidade do silêncio, a memória do toque.

QUANDO TUDO ISSO ACABAR

“Quando tudo isso acabar” é uma das frases mais escritas e faladas durante os tempos de isolamento social. Pessoas fazendo planos, esperando por um futuro incerto, difícil de se imaginar, mas que ainda guardam consigo um resto de esperança, para além da melancolia e da angústia. Esta série de desenhos e pinturas – correspondente ao meu período de quarentena –, foi construída dia a dia, como um diário. As imagens apresentam reflexões sobre arte, política e história, tratam do modo como nossos corpos têm ocupado os espaços públicos e privados, criando novas coreografias e cartografias; como a arquitetura se reinventa; e, ainda, como notícias nos atravessam para produzir novas possibilidades de contagem do tempo, das pessoas e da vida.

TEMPO PERIGOSO

Todos os dias, são colocadas bandeiras vermelhas com inscrição de “Local perigoso” nas praias que possuem correntezas ou representam perigo iminente aos banhistas. As duas palavras servem apenas para reforçar o entendimento da cor ou do risco. O local, aqui, dá lugar ao tempo, e subverte a própria noção de espaço, de perigo e de imersão. Talvez sempre tenhamos vivido tempos perigosos, tempos mascarados, tempos contaminados (assinalados em bandeiras, também vermelhas, que indicam o altíssimo risco de contágio nas cidades), só não nos foi revelado com tamanha intensidade e projeção.

VARREDURA

Na seção de meteorologia do Jornal do Brasil, em 1968, dia seguinte à decretação do AI-5,foi publicada a sequinte nota: “Previsão do tempo: Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras”. Nesta pequena pintura, ajustada acima da altura média dos olhos do espectador, essa nota se repete com a ausência de lugar, e de temporalidade. Um texto que serviu pra driblar a censura no ano mais duro da ditadura militar, retorna acentuada em 2021, num contexto de pandemia, de ódio, de fakenews, de genocídio e de desmonte do país.

CATÁLOGO VIRTUAL

capa catalogo

CATÁLOGO
QUANDO TUDO ISSO ACABAR

Realização | Helena Fretta Galeria de Arte
Textos | Helena Becke M Fretta,Aline Natureza,
Sandra Meyer, Debora Pazetto e
Gabi Bresola e Kamilla Nunes
Projeto Gráfico | Kamilla Nunes
Revisão | Aline Natureza

O catálogo possui 64p em papel OffSet.

Valor: R$ 35,00 (frete incluído)

PIX | CNPJ –  01776371000122

Helena Becke M. Fretta Galeria de Arte Eireli

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VÍDEOS

TEXTOS CRÍTICOS

SOBRE RECOMEÇOS E INACABAMENTOS

Sandra Meyer

 

Mais de uma década depois de estudar artistas e realizar várias incursões como curadora, Kamilla Nunes se permitiu experienciar o lugar de artista. O olhar acurado para a produção alheia trouxe à tona a urgência de trabalhar suas próprias inquietações. A curadora abriu espaço para a artista, entendendo que ambas são facetas que se desdobram, intensificando uma atitude criadora crítica, agora não mais contida. Trata-se, pois, de não somente reconhecer o gesto da arte, mas se reinventar a partir dele para inaugurar outros possíveis.

Ao parafrasear o paradoxo proposto por Paul Valéry na série O mais profundo é a pele, a artista faz um chamamento aos afetos, interditados pelas normas de distanciamento social impostas pela pandemia, com desenhos de abraços prolongados entre faces mascaradas, disseminando as imagens-desejo enviadas por pessoas de seu convívio. O amor, sentencia Valéry, não vem do coração, vem mesmo é da pele.

Na série-diário Quando tudo isso acabar, sentença que ainda paira entre nós, tudo é corpo em movimento. Samambaias vasculares, espadas cruzadas de São Jorge, escadarias que levam nem sei para onde, facas (des)afiadas, línguas cortadas, janelas muradas e mergulhos do corpo no espaço compartilham da mesma (im) potência e importância. São corpos inversos em sua materialidade, escala e perspectiva. Provocam nossa percepção e traduzem a rede de forças e intensidades pela qual somos atravessados/as/es. Não há como mudar um gesto se não mudamos nossa percepção. Em alguns idiomas do não ocidente, a palavra corpo não existe desacompanhada; corpo está sempre em situação, ou seja: corpo em pé, corpo esvaziado, corpo alegre, corpo triste, corpo submerso, corpo desamparado, corpo empilhado, corpo morto, corpo demasiado, tal qual os corpos situados/sitiados que os desenhos e pinturas de Kamilla nos permitem ver.

A casa era uma ilha ancorada pela paisagem apresenta âncoras – dispositivos normalmente usados para evitar a deriva – suspensas entre nuvens, almejando, talvez, um cais seguro. Kamilla subverte a semântica e o contexto já dado das coisas e das palavras para instaurar outros circuitos imagéticos. Palavras e frases se desdizem, provocam “áreas limitares”, título de um dos desenhos pandêmicos.

Desde as primeiras investidas em forma de desenho, Kamilla já nos mostrava que suas propostas nos interpelam para além de um questionamento pessoal, pois não é mais o seu corpo, mas o nosso corpo social, imerso num contexto viral. O movimento de alteridade aparece também no carimbo, tomado emprestado do artista Fabio Moraes, por Kamilla e Gabi Bresola. Do eu ao nós se transforma num múltiplo para exercitar a necessidade, em uma pandemia, de nos implicarmos socialmente.

Os traços a nanquim, com matizes acinzentadas que vão do quase preto ao quase branco, testemunham o medo, a (des)esperança, a vontade de presença. As figuras impressas num fundo falsamente neutro remetem a tempos de incertezas, tempos estes que se agigantam a cada segundo, minuto, hora, dia, semana e mês do fatídico último ano. Haveria horizonte por vir?

Tempo perigoso remete às estacas fincadas nas praias da Ilha para orientar banhistas sobre as condições do mar. Única série em que a artista permite a presença da cor, no caso o vermelho, para que não reste dúvidas do perigo iminente. Com Aline Natureza, veio Escape, um ponto de fuga que articula imagem e espaço à espera de um fim que teima em não chegar. Enquanto tudo isso não acaba, é bom saber que podemos contar com a potente e inesperada produção visual de Kamilla Nunes para reexistir na/com arte.

 

AINDA NÃO ACABOU

Debora Pazetto

“Uma pessoa sempre escreve e lê do lugar em que seus pés estão plantados, do chão de onde se ergue, do seu posicionamento particular, ponto de vista” [Anzaldúa].

Os pés dela estão plantados em uma ilha. Mas a ilha está ancorada no ar. E o ar está irrespirável.

Ao menos, artista que nasce plantada em ilha sabe do que é feito o mar.

Sabe mergulhar, pescar, lançar a rede.

As redes de diálogo, referência e apropriação que aparecem na grande maioria dos trabalhos de Kamilla Nunes revelam, por um lado, seu vasto conhecimento de arte latino-americana contemporânea e, por outro lado, sua habilidade de pescar atravessamentos com precisão e potência, adquirida por meio de uma longa experiência como artista-curadora.

A América Latina tem uma ampla e consistente linhagem de arte política, sobretudo de arte contra o Estado [na Terra Madura, da Sociedade contra o Estado, não poderíamos esperar menos], que se intensifica e se complexifica sob regimes autoritários. Durante a ditadura militar-empresarial-midiática brasileira, que agora revivemos enquanto tragédia e farsa, a produção artística mais interessante foi desenvolvida em forma de drible contra a censura e a perseguição. A rede é lançada e essa produção contracultural, que reagiu e segue reagindo à repressão política e à perda de direitos, rebrilha na areia da praia.

Muitas vezes, o drible era friccionar sistemas de linguagem para comunicar de forma sutil, cifrada ou ambígua [surgem marmitas que são livros, cédulas que são textos, textos que são esculturas, esculturas que são armas]. Se a arte pôde algum dia ser compreAINDA NÃO ACABOU Debora Pazetto endida como guerrilha, é porque soube funcionar como um sistema de troca de informações, independentemente dos controles centralizados – do governo, da imprensa e da própria arte em sua dimensão institucional –, agir com rapidez, furtividade, um pouco de improvisação e escapar aos órgãos de vigilância. Escape. Por algum ângulo, alguma aresta, dobrando a esquina. É tempo perigoso, mas [ nós ] não podemos ter a vida e o trabalho cooptados, então escape.

[A materialidade da palavra escorrega em sua semântica e some].

Esse tipo de contracomunicação [Artur Freitas] não é apenas um questionamento da supremacia da visualidade por meio de experimentações com a linguagem textual, e o inverso, mas também uma busca por textualidades e visualidades desviantes. Desvie. Drible. Escape.

No tempo perigoso, a arte pode ser arco e flecha [Celso Favaretto] porque se instaura entre a crítica do presente e a construção de futuro. Uma parte do trabalho de Kamilla Nunes é áspera porque opera como diagnóstico de crise [o arco], expondo a curvatura neoliberal que vai do lucro bancário ao transtorno de ansiedade. A outra parte, que opera como apontamento de direção [a flecha], é mais afetuosa. Ela nos lembra, no acolhimento das peles e plantas, que, embora haja um imenso vazio, no meio dele há [ nós ]. E nós não andamos sós.

Todos os trabalhos da exposição Quando tudo isso acabar foram feitos durante a pandemia. Ainda assim, eles escorrem de uma produção anterior, cujo epicentro, em minha opinião, é Crises. Esse núcleo neural condensa, no menor espaço material, formal e simbólico, uma análise feroz da era farmacopornográfica [Preciado]. O capitalismo confisca a nossa visão para o mundo das coisas consumíveis, enquanto os substratos que o sustentam permanecem invisíveis. Daí a importância política das visualidades desviantes, que dão corpo a noções abstratas como o dinheiro, o psiquismo, os juros, a subjetividade, o crédito, o pânico. Crises rematerializa a farmacopornografia em dois centímetros cúbicos [Cildo brilha na rede].

Dois cubos minúsculos, duas pílulas, dois dados, duas sementes – aí se condensam os assuntos que aparecem em toda a trajetória da artista: o transtorno psíquico e a crítica do capital, separáveis apenas enquanto lentes analíticas diferentes para perceber a mesma catástrofe. Se Crises for pensado como ponto de inflexão ou semente dos trabalhos anteriores à pandemia, do cubo de dólar germinam Vidraça, Área limitar, Deu no jornal. Do cubo de Rivotril germinam Autoajuda, Angústia, Claustrofobia, Hoje ficamos por aqui, Frases de corte. É um novo corte – pandêmico, não psicanalítico – que faz tudo frutificar em Quando tudo isso acabar. Os trabalhos anteriores reaparecem na agilidade dos diários e dos nanquins.

[uma poda é um corte que frutifica]

Quando tudo isso acabar é uma série de imagens de corte. Não sabemos quando vai acabar nem em que consiste o tudo-isso, mas, a cada dia, ficamos por aqui. Cada imagem jorra do nosso consciente coletivo. Cada imagem encerra a sessão analítica de um dia. Cada imagem faca, flecha, anzol, ponta de lança.

Um texto ou uma imagem pode ser uma arma – de Emma Goldman a Mano Brown – porque toda guerra é ideologia materializada em armamento e subjetividade. Por isso, o conjunto perturbador de 288 imagens corta em duplo sentido, acusando a inseparabilidade entre dólar e Rivotril. Cada imagem escorrega da ponta do psíquico para chegar no flanco do político com a faca amolada.

“Quando escutei os tambores de Candomblé e vi a costa brasileira se aproximando numa tomada aérea, eu sabia que aspectos inconscientes da realidade brasileira estavam à beira de se revelar” [Caetano Veloso, a respeito de Terra em Transe]. 2020/Ainda não acabou. Como em 67, seguimos revelando nossa junção de miséria subdesenvolvida, colonialismo e avanço tecnológico a serviço do consumo. A televisão e a favela.

Como fazer arte quando se assiste diariamente um genocídio [que segue tendo cor, gênero e classe]? “Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma” – todo dia um desastre pra acumular – “de nada somos poupados, nem mesmo de estar informados sobre isso” [Comitê Invisível]. Quando tudo isso acabar se oferece como testemunho: covas abertas, caixões de papelão, neofascismo, fake news, florestas incendiadas, falta de ar, falta de sol, falta de esperança. E os canalhas de sempre.

A televisão e a favela. O smartphone e o extermínio. Cada imagem da série é uma pequena tela retangular e diária: um story. O Instagram coloniza o tempo do nosso olhar [e, portanto, da nossa subjetividade] de uma forma cruel. Quinze segundos por imagem. Selfie, genocídio indígena, selfie, fora Bolsonaro, foto de gato, selfie, fogo na Amazônia, meme, PM mata criança negra, foto de gato, meme. Quando tudo isso acabar traz o mesmo tipo de variedade cotidiana. Notícia, máscara, planta, história da arte, cova, abraço, gato têm direito ao mesmo pequeno retângulo. O tempo, no entanto, muda tudo. Deslocar as imagens de um tempo curto e superficial para o espaço-tempo dilatado da reflexão artística tem sua potência. Não veremos as covas abertas por apenas quinze segundos.

“Que é, pois, o tempo?” Intuir a temporalidade da existência – problema metafísico primário de Santo Agostinho a Arnaldo Antunes. Contra o tempo cronológico da sucessão de minutos, o tempo existencial é REC OME ÇAR, é AGORA, é QUANDO tudo isso acabar, é HOJE ficamos por aqui, é HAY QUE SEGUIR soñando. Quando, hoje, agora, hay que são lastros poéticos de um tempo no qual os dias têm escorrido pelas mãos ou vazado dos calendários.

No tempo perigoso, o presente só existe enquanto afirmação radical da presença. Não podemos segurar o agora, porque o agora já passou, mas [ nós ] estamos aqui, ancoradas no presente, como testemunhas, vítimas e cúmplices da catástrofe.

O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.

Oito bandeiras vermelhas revelam esse vento sufocante e irrespirável. Todas elas apontam para a direita. A arte não salva-vidas [não podemos ser messiânicas em tempos perigosos], mas sabe onde cravar bandeiras de alerta.

Entre bandeiras de alerta há pedaços de mar manso. Saber o mar é saber onde se pode mergulhar ao fundo: à pele.

Mergulha, que o mais profundo é a pele.

Se é a paisagem que ancora [ou está ancorada em] ilhas planta- das no mar, é porque a paisagem não se reduz a ar irrespirável e mar de concreto. A paisagem é corpo. E, na geografia paradoxal do corpo, superfície é fundura.

Se, na linguagem marítima de Kamilla Nunes, podemos ancorar nossa deriva em abraços sob máscaras ou no relevo erótico de dois corpos que colam sua nudez [dois corpos lésbicos, é preciso assinalar], é porque o afeto também pode ser uma paisagem subversiva. Ainda não acabamos. Há paisagem de escape.

ANTES DO CHORO

Gabi Bresola

ai, ai, o que vem antes do choro,

é sempre o desespero de começar a chorar.

não sabemos lidar com a finitude das coisas.

sei que debaixo das massas pretas de nanquim tem um traço anterior, daquelas tentativas que não são necessariamente abandonadas. estava escuro e ninguém viu, era um desenho submerso. kamilla começou a desenhar pra destruir. eu sentei no banquinho que ela desenhou pra esperar do seu lado, na distância segura, na imundície do pátio.

hoje não me sinto suficientemente coerente. quando será amanhã?

amanhã, ontem, agora, antes, depois. tempo do desassossego, tempo perigoso. manhã montanha, noite russa. mergulha, que você sabe enxergar o imperceptível. um trevo de quatro folhas e um gato preto atravessando na frente. e nem sempre a gente projeta aquilo que é. nem sempre a gente projeta. o importante é fazer tudo parecer fluido e natural. a gente segue sentada, eu, você, ela e o quando. quando vai dar mais pra ver a lua, durante 110 dias. quando não der pra resistir aos monumentos. quando ancorarmos navios no espaço. quando puder mandar uma notícia boa. quando a nossa desgraça não for ganha pão dos outros. quando tivermos ideias para adiantar o fim do mundo. quando dermos mais o play na angústia. quando alguns problemas forem mais simples que outros. quando não precisar mais implorar. quando da minha posição eu puder ver você. quando a vida estiver alargada até tocar a parede da casa. quando a largura da vida parar de tocar a parede do labirinto. quando parar de fingir normal. quando deixarmos os céus caírem, os dias escorrerem pelas mãos.

e toda coisa for viva e relâmpago pra aterrar. pode, de repente, surgir uma lasca de luz. pelo menos um pouco de sol. à selva e ao mundo; a todos os universos, das coisas que nunca vemos (ou nunca vimos). escapar pela quina da parede. esperar entre o érre e o a da palavra espera. o mundo já acabou? unidos morreremos, acomodando restos. o último dia do tempo não é o último dia de tudo. eu não tenho esperança, mas às vezes eu tenho. enquanto estávamos sentadas no banquinho, uma parte de kamilla engoliu ela inteirinha. e resumiu seu trinômio a artista. então, ela chamou mais gente pra esperar junto. quando tudo isso acabar, talvez esteja começando. o quando e o enquanto se misturaram, e até agora tomo o maior cuidado para não entendê-los.

nós, sós, rimos. continuamos esperando.

ai, ai…o que vem depois da gargalhada,

é sempre vergonha de parar de rir.

não sabemos lidar com a finitude das coisas.

TEMPOS DE FUGA

Helena Becke Machado Fretta

Vivemos dias difíceis, tempos em que o mecânico e essencial ato de respirar se tornou perigoso demais. A pandemia nos privou do ar puro, nos afastou dos abraços, nos fez refletir sobre a importância da convivência social quando o individualismo de ontem ditava as regras do dia a dia. Tempos perigosos esses que nos rodeiam, que nos afastam e nos fazem questionar diariamente quando tudo isso vai acabar, quando poderemos voltar a sonhar com um futuro próximo e diferente da realidade a que estamos sujeitos há meses.

Em sua primeira individual na Helena Fretta Galeria de Arte e em meio a esse momento tão difícil para o mundo, Kamilla Nunes nos apresenta Quando tudo isso acabar, com desenhos, pinturas, imagens e instalações produzidas durante o período de confinamento da pandemia e que revelam leituras da artista sobre arte, história e política. Trabalhos cuidadosamente idealizados para nos instigar a refletir sobre um 2020 de distanciamento, mas também de aproximação; um ano de afirmação de quem somos e do nosso papel no coletivo; um período que permanecerá na história como aquele em que o mundo, mesmo com tantas incertezas, se uniu por uma só causa, ancorado na certeza, ou, ainda, na incerteza de quando tudo isso irá acabar.

A arte faz parte desse agora e vem como uma alternativa de fuga, como uma forma de se manifestar e como um mecanismo de registro do presente. Foi como professora de história por mais de vinte anos que percebi a importância dela dentro dessa disciplina. As duas caminham lado a lado escrevendo e desenhando o comportamento humano através das gerações. Esse processo é muito bem costurado nas obras apresentadas por kamilla Nunes e que exploram nosso atual momento. O eu que agora é nós, o ar que parece preso numa escuridão sem fim, a pele que precisa de um abraço, e o escape para algum lugar seguro, quem sabe uma ilha ancorada por tempos não tão perigosos.

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